
Maira nasceu em Porto Alegre (RS) e ainda pequena sua família transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde ela graduou-se em português-inglês pela Faculdade de Letras da UFRJ. Começou a trabalhar com tradução de obras científicas, revisão de livros e lecionando inglês para o pré-vestibular. Fez resenhas literárias para O Globo e Jornal do Brasil, a convite de Ivan Junqueira e José Castello respectivamente, mas logo se cansou de criticar o livro dos outros por uma mixaria e das panelinhas literárias de pressão. Antes do surgimento da internet, sempre publicou seus textos em antologias coletivas e jornais e revistas de cultura independentes, como editora e colaboradora. Começou a colaborar com sites literários no ano de 2001 e em abril de 2002 criou o blog de literatura e arte Prosa Caótica (http://prosacaotica.blogspot.com/) para divulgar seus textos, os de autores nacionais e estrangeiros conhecidos, desconhecidos, descatalogados e inéditos, além de suas próprias traduções livres de poetas estrangeiros. Em novembro de 2005, participou da antologia de contos Blog de Papel (ed. Gênese, São Paulo) que reunia escritores blogueiros. Em maio de 2006, publicou seu primeiro livro solo, Não feche seus olhos esta noite, pela editora Rocco. Em 2007 seu blog Prosa Caótica participou da mostra Blooks -- Tribos & Letras na Rede, no Rio de Janeiro, evento coordenado por Heloísa Buarque de Hollanda e com curadoria de Bruna Beber e Omar Salomão. Em novembro de 2011, juntamente com a videomaker Eliane Garcia, é premiada no concurso internacional de Poesia ao Vídeo da VII Fliporto, em Olinda. Maira é tradutora, revisora de traduções e editora de texto para editoras cariocas. Bret Easton Ellis, Irvine Welsh, Gary Shteyngart, Eli Gottlieb, Aleksandar Hemon (um dos três vencedores do Prêmio Cunhambebe 2010 de melhor ficção estrangeira contemporânea publicada no Brasil com o livro O projeto Lazarus), Noam Chomsky, John Grisham, Nick Laird e Josh Bazell são alguns dos autores que traduziu. Seu segundo livro, A boneca de Kafka, será lançado em data incógnita. Escreve um terceiro, com o título provisório de Solitaire. Tem um blog só com textos e rascunhos seus, o poemas cubas e torneiras. Contato: mairaparula@hotmail.com
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Sobre Não feche seus olhos esta noite
La escritura es fuerte y lírica. La vida, sórdida.
La locura está cerca. Y el personage ronda el abismo,
buscando un equilibrio cojo entre el todo y la nada.
Nunca más ser. Nunca más despertar. Nunca más ver la
realidad mezquina. Casi podrida. Personas que no
arden, emociones que no queman, acidez que no hiere.
Y la vida que a pesar de todo renace en la extraña
capacidad que todavía se tiene de soñar. La opera
prima de Maira Parula es para quien tiene el coraje
de ser visceral, acepta las reglas del juego incluso
ignorándolas, no teme la fiebre, la sinceridad sin
tapujos, y se lanza al vacío sin susto, sin medias
tintas. Con el alma lista para el corte. Que está
allí, en cada página, en cada llama, en cada palabra
que hiere, pero cura. Aunque sea en el absoluto susto.
Cerlalc, Madri.
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A literatura como sombra
Em seu extraordinário livro de estreia, Maira Parula compõe uma ficção escorregadia e lúdica
André de Leones
Especial para o Diário de Cuiabá
A primeira coisa bacana sobre o livro de estreia de Maira Parula, Não feche seus olhos esta noite (Rocco), é que, bem, ele não se parece com nada, com nenhum outro livro. É único. Maira parece mesmo ter desenvolvido um estilo todo dela a ponto de implodir todas e quaisquer possíveis ascendências. Se a autora sofre de alguma “angústia da influência”, guardou para si.
A segunda coisa bacana (neste caso, bem entendido) é que a ficção de Maira Parula não tem compromisso com a linearidade. Tudo nela é escorregadio. A protagonista se transforma, é alguém diferente a cada passagem. A cada instante, o próprio livro se transforma. Prosa, poesia. Como em relação a um filme de David Lynch, a melhor coisa a fazer é relaxar, esquecer a obrigação de que tudo tem que fazer sentido (porque não tem) e aproveitar a viagem. É muito bom não ter que explicar nada.
Num livro em que noites transcorrem como um século e todos preenchem os espaços como podem, a imperfeição é cortejada porque não há nada além dela. Mesmo a metalinguagem está ali pelos desvãos, quase que acidentalmente (mas nunca acidentalmente, claro), às vezes como piada (página 143: “’O primeiro parágrafo de tudo é como um iceberg. Quem tem medo contorna. Quem tem pressa afunda.’”). Logo, Não feche seus olhos esta noite é um livro que se descola da própria literatura e passa a tratá-la como sombra.
Tal processo de descolamento deve ser percebido não como um vanguardismo mais ou menos estéril (até porque as vanguardas estão muito velhas ou apenas mortas), mas, sim, como a expressão de uma, por assim dizer, criatividade visceral que anima o livro todo e produz passagens brilhantemente sardônicas e autoconscientes como esta, na página 11: “também é verdade que os leitores estão ficando cada vez mais educados e inteligentes na mesma medida em que os cães vão aprendendo a atravessar as ruas agitadas de uma cidade grande.”
O caos narrativo desenhado por Maira Parula, por não ser repetitivo e por não pretender reinventar a roda, é coloridíssimo, instigante e, sim, divertido. Nesse sentido, Não feche seus olhos esta noite é produto de uma originalidade que nunca chateia o leitor porque é lúdica, rascante e dotada de uma melancolia bastante viva, dessas que riem chorando e vice-versa.
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À espera da peneira do tempo
José Castello
para o Valor Econômico
Quatro lançamentos ajudam a entrever alguns rumos para a literatura brasileira no século XXI. Projetos prudentes, gerados mais pela cautela - como quando se caminha no escuro - do que pela aposta firme em uma voz pessoal. Entre as quatro novidades, há, na verdade, uma interessante exceção: Não feche seus olhos esta noite (Rocco), o enigmático e imprudente livro de estreia da poeta gaúcha Maira Parula, que, a meio caminho entre a poesia e a prosa, revolve, com ímpeto, o mal-estar contemporâneo.
Aos 52 anos, Maira não é uma poeta inexperiente. Há muito tempo seus textos circulam em revistas literárias e em blogs. Se seu livro não chega a apontar com clareza uma direção, deixa, ainda assim, cara a cara com a impotência, ou pelo menos a insuficiência, a que a palavra, hoje, parece condenada. É um livro forte, ainda que opaco. Um livro de transição, escrito quando ainda não se pode prever o futuro.
Os outros três lançamentos, Mãos de cavalo, de Daniel Galera; O paraíso é bem bacana, de André Sant'Anna, e Contos de Pedro, de Rubens Figueiredo, todos pela Companhia das Letras, livros maduros, projetam, com mais nitidez, a imagem de um futuro conservador. Não se pode negar a firmeza, a limpidez com que narram suas histórias. Ainda assim, os três se apegam às memórias simuladas, aos rumores da juventude e, sobretudo, a uma visão cautelosa do ofício literário. Dão a impressão, incômoda, de que se pautam mais pela ideia de não falhar do que pela ideia de avançar.
Que futuro anunciam? Galera, aos 26 anos de idade; Sant'Anna, aos 41, e Figueiredo, aos 50, filhos de três gerações distintas, já são conhecidos dos leitores mais atentos. O caçula Galera apareceu nas páginas da internet e nas confissões prolixas (e mentirosas) dos blogs. Pertence a um grupo que retoma, por vias oblíquas, a influência beat, a literatura aventureira e, ainda, o fervor no cotidiano, tal qual nos anos 70. Seu romance, Mãos de cavalo, se faz por estilhaços, fiando histórias que se prendem com delicadeza e que tocam em sentimentos simples, como a culpa e a reparação.
Com O paraíso é bem bacana, André Sant'Anna também persegue o mundo das coisas não especiais. Só que, mais crítico do que Galera, nele trata de fisgar aquilo que torna comum um mundo comum - os clichês, os comportamentos previsíveis, os tiques psicológicos, as máscaras. Conta a história de Mané, que, confinado em um leito de hospital em Berlim, enche seu vazio com delírios sensuais e enxurradas de recordações. A matéria de Sant'Anna é, como sempre, a banalidade, a pobreza de espírito, a repetição, o atoleiro. Ele faz uma literatura que opta, radicalmente, pela superfície, disposta a esgotar - ou mesmo exorcizar - as mordaças mentais que nos limitam.
Mais refinado, e com mais equilíbrio, o mais velho deles, Rubens Figueiredo, pratica uma literatura que tende à contenção e ao refreamento. Seu Contos de Pedro traz uma série de histórias vividas por uma série de Pedros, que, por vias distintas, cavam seu lugar no mundo. Figueiredo investe na tendência antiga ao retrato interior, que, provavelmente, espelho nobre, já não sustenta o mundo estilhaçado de hoje. Sua busca esbarra, quase sempre, nos limites de sua maneira de buscar - como um pintor que, desejando retratar um outro, terminasse por pintar sempre a si. Nem a leveza, ainda que juvenil, de Mãos de cavalo, nem a mordacidade de O paraíso é bem bacana, menos ainda o atordoamento de Não feche seus olhos esta noite a literatura vista como um ofício persistente e meticuloso, a ser praticado com afinco e discrição.
Já o livro de Maira Parula é mais tenso, e mais insatisfeito com as chances da literatura. Não que resolva alguma coisa, não que consiga, de fato, perfurar a grande zoeira, o uníssono infernal que imobiliza nosso presente. Mas, se falha, esgarça seus limites, dá a ver o quanto a palavra anda (mesmo na literatura) fraquejando. Maira não se contenta em praticar um só gênero, daí a dificuldade para classificar o que faz. Poesia? Romance? Prosa poética? Confissão disfarçada de ficção? Seja o que for, seu livro circula pelas fronteiras possíveis do literário, e com isso fustiga nossa imensa dificuldade, hoje, para nomear as coisas. É uma literatura de dúvida e de inquirição. Em vez de se fixar em nosso horroroso mundo de rótulos e clones, como faz André Sant'Anna, sua narradora - que transita por nomes e sexos, e que talvez nem seja uma pessoa só - patina sobre o grande vazio, a grande opacidade do novo século. Lemos, lemos, e quanto mais avançamos, menos sabemos o que lemos.
São quatro possibilidades - o mapeamento sereno, a repetição brutal, a introspecção cautelosa e o atordoamento -, quatro tentativas de fazer a literatura avançar. Mas que literatura é esta? É muito perigoso esboçar painéis para uma paisagem em que, a rigor, domina a indefinição. Pode-se rascunhar tendências, arriscar o alinhamento de alguns escritores a certas forças sempre imprecisas, e não muito mais. E, ainda assim, sabendo que esse esforço, no fim, será só uma maneira de oferecer um ponto de partida, uma base frágil a partir da qual as leituras, sempre livres e surpreendentes, devem se fazer.
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Momentos
Dade Amorim
para o jornal digital Primeira Fonte
“Entre o susto e a coragem”, como diz José Castello no texto de apresentação, cada página desse livro empurra o leitor e o espicaça para a página seguinte. Descontínuo e inusitado, cada texto desperta uma curiosidade nova. É preciso saber onde vai dar aquilo. Logo porém se percebe que cada item é um beco. No máximo pode se aventar a hipótese de que se comuniquem subterraneamente, como subterrâneo parece ser o rumor da iminência que sustenta os textos sem os detonar.
Posto esse primeiro resultado da leitura, é preciso levar em conta que todo primeiro resultado é provisório e generalizante. E é impossível nivelar os textos de Não feche seus olhos esta noite sem cometer uma tremenda injustiça. Não estou pensando em diferenças de qualidade que destaquem uns ou outros, mas na particularidade que se inscreve em cada um deles.
Há que voltar sobre os calcanhares e olhar de novo, sem se deixar levar pela novidade. Maira domina a escrita e tira dela o melhor partido para seus objetivos, entre os quais o de expor seu desconcerto diante do mundo e das pessoas. Cria para isso um clima às vezes um tanto delirante, às vezes assustador, onde o leitor se sente à vontade para reconhecer e saudar, quem sabe, suas próprias obsessões com um sorriso autoindulgente. Mas o cheiro de universalidade, que se acentua em certas passagens, deixa entrever alguma instância obscura, como o próprio inconsciente.
Castello diz, a certa altura, que o texto de Maira “nem poesia é”. Mas na retomada de suas páginas, percebe-se que uma poesia meio nocauteada, suja e perplexa, mas nem por isso derrotada, vem à tona de vez em quando. Não necessariamente nos textos dispostos em versos, um lirismo de olho roxo manifesta sua presença e se confirma aqui e ali com menos ou mais intensidade. Na página 9, logo após a epígrafe, num texto versificado, grita uma angústia intensa que explode em silencioso desespero, pondo em cena a Magnum que pontua outros momentos do livro. A 97 abre com um poema à la Artaud, a 99 traz o que talvez seja o texto em versos mais lírico entre todos, com um jeitinho de Sylvia Plath. Na 165, um poeminha expressionista com pedigree.
Há textos de nonsense e pitadas de besteirol; contos com pé e cabeça, um humor gostoso de ler, trechos que parecem depoimentos dados num divã de analista. Há também sinais de erudição tratados com elegante displicência; sintomas de síndrome do pânico e um poema florido de Cesário Verde.
Uma coisa é certa: Maira Parula não dá pra ler início meio e fim. É tudo ou nada.
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Foto Maira: Claudia Moraes
Foto do livro: Cris Carriconde
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